quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Mais uma observação absolutamente dispensável

Depois da descoberta descrita no primeiro post abaixo, uma outra: vocês não podem imaginar a vantagem em deixar de ler comentários de praticamente a totalidade de nossos analistas políticos. Parece mentira, mas tente seguir o que vai a seguir: pesquise algum texto de algum comentarista ou blogueiro político publicado há coisa de uns seis ou mais meses, esteja o autor à direita ou à esquerda do que quer que seja. De duas, uma: ou os textos parecem ser os mesmos de hoje, ou as previsões catastrofistas ou nirvânicas não terão acontecido. Conclusão: leiam colunistas de um Ruy Castro, de um Cony, de um Washington Novaes. Longe de escrever amenidades, eles escrevem sobre a vida real e, quando prevêm, só prevêm o que já aconteceu. Vale a pena.

Eu só sei que eu não quero nem saber

Num destes jogos deste time que chamam de seleção brasileira, notei que um amigo deixara a televisão ligada sem o áudio e descobri, magicamente, o prazer de não ter de ouvir a coleção de bobagens e babagens proferidas pelos galvões e similares da ocasião. Incrível, fantástico, extraordinário perceber o quanto nós somos reféns da inércia. Uma coisa tão simples de se fazer, um prazer tão enorme de sentir. Tentem, experimentem.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Enquanto isso, na União Soviética...

Uma quinta de primeira. Logo de manhãzinha, depois de uma noite de calor senegalês em que não se dorme por nada neste mundo, sou acordado por uma bombástica notícia de rádio: um secretário de estado havia tido uma filha denunciada por uso indevido de influência política. O quê? Algo está errado. Agora só faltava a denúncia ter sido feita pela afiliada da maior rede de comunicação do país. E foi mesmo, o que demonstra que definitivamente algo está errado. Mais um pouco e surge o secretário nas ondas da rádio de maior audiência, na qual ele tem ou teve participação acionária, e prega com autoridade e autoritarismo sobre a necessidade de investigação e punição para a filha, em caso de culpa. Esclarece que trata-se de uma filha de um relacionamento anterior a seu casamento atual, mas - fazer o quê? É filha, né! De volta pra casa, zapeando no rádio do carro em busca de alguma musiquinha, eis que a rádio estatal anuncia que entrará em cadeia com as outras emissoras estatais para a transmissão de uma entrevista do secretário e pai. A ponto de ir às lágrimas, sol um mal disfarçado desejo de matar uma meia dúzia de adversários políticos e - quem sabe - algumas filhas, o secretário poderia acompanhar, em rede, sua valentia escorrendo pelo ralo.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

"É o Gabriel, seu filho, pai".

Certo que não tem significado nenhum pra ninguém além dos personagens citados, mas ontem, subindo pra Clarim, sacando do celular pra pedir pra menina que iria me acompanhar a um cliente que estivesse pronta à porta, eis que aperto a tecla da última ligação e - qual não foi a surpresa - a última ligação não havia sido feita para a agência e sim para casa. Atende de lá o dono da voz do título e, do alto dos seus sete anos, estranhando que eu não estivesse entendendo que havia ligado para o lugar errado, me sai com aquela resposta, exatamente. Não dá pra não rir da graça explicativa do menino mais bonito do mundo.

Paz na terra, por Cony, na Folha de 22/1

Encontro com antigo colega do seminário, hoje padre, na porta da igreja. Eu esperava uma filha, e ele esperava a hora de fazer sua prédica sobre o mês de maio. Havia uma chuva miúda, o vento saía do túnel novo e varria as duas avenidas que vomitam automóveis vindos da cidade, em busca de Copacabana.
Lá dentro, na igreja, há calor e beatas. Alguém reza em voz alta, mas as buzinas dos carros soam mais fortes.
-Milagre?
-Não. Espero alguém.
Ele faz cara compreensiva, embora compreendendo outra coisa.
-Como vai essa ovelha tresmalhada?
-Já não sou tresmalhado, nem sequer sou ovelha.
-Isso depende de você. Olha, mais dia menos dia, você não aguenta mais.
Mudo de assunto:
-E o papa?
Há um brilho comovido nos olhos do padre.
-Você gosta dele?
A pergunta parece sem sentido, era claro, não tinha nada contra o papa.
-Pois olha, é um homem admirável.
E começa a falar. Do papa, descemos aos cardeais, depois aos bispos. Deu-me notícias que o nosso dom Jorge Marcos de Oliveira continuava o mesmo "Turcão" que conhecemos no seminário. Isso significa muita coisa de ternura e admiração.
"Turcão" era o camarada mais inteligente do seminário e do mundo. Bispo em Santo André, já falecido, tornou-se notável pelo seu zelo e pela sua competência pastoral. Vítima do noticiário dos jornais, dom Jorge muitas vezes foi apresentado como "moderno" demais, amigo demais dos trabalhadores. Esse "moderno" é justamente o "Turcão" do seminário.
Mas a sineta toca lá dentro e o padre entra.
-Vou falar sobre o mês de Maria. Na saída, voltamos a conversar.
-Posso ouvir?
-Não. Não aconselho. Vá esperar seu alguém.
O padre entra e eu vou atrás. Sento no banco mais escuro e triste. Beatas por todos os lados, lá no canto um homem idoso e curvado tosse com estrondo.
Acendem-se as luzes e o padre entra.
-Meus amigos, ia falar hoje sobre o mês de Maria. Mas encontrei lá fora um amigo de infância e mocidade, companheiro de ideal e de antigas lutas, hoje do outro lado da trincheira. Falar sobre o mês de maio seria ocioso para ele. Para vocês, outros padres falarão melhor do que eu sobre esse assunto. Pois falarei sobre um tema que tanto pode servir a vocês quanto a ele e a mim. A paz.
Não a paz dos guerreiros, a paz dos políticos, dos financistas. A paz paz, pacificamente instalada no coração e na angústia do homem. Lembrou a encíclica "Paz na Terra", não era qualquer paz que interessava para o homem.
E lembrou dois trechos do Evangelho. Quando Cristo diz: "Eu não vim trazer a paz, mas a guerra"; e quando, já ao fim de seus dias na Terra, faz sua grande oferta: "Eu vos dou a minha Paz".
Lá no fundo sinto o bruto orgulho de ter um amigo falando bonito e bem. Revivo algumas cenas de nossa infância, nossos estudos, o dia em que, juntos, começamos a estudar filosofia, quando apostamos tirar dez em ontologia. Toda a ternura antiga e não sabida vem à tona.
A prédica acaba, as beatas se ajoelham para a missa e eu saio trôpego, sem saber se devo ficar ou se devo partir imediatamente, infinitamente, em busca dos caminhos que escolhi sem ter preferido.
Lá fora, o vento que o Atlântico sopra vem por dentro dos túneis que engolem massas compactas de carros, as luzes vermelhas piscando histericamente na noite que desce sobre a cidade atrofiada de ossos e músculos cansados.
Na igreja, começa a missa, o mesmo rito antigo que Joyce colocou no pórtico de seu "Ulisses" e eu coloquei no pórtico de minha adolescência frustrada: "Subirei ao Altar de Deus". Que Deus? Que Altar? Há trincheiras ou, feitas as contas, não estamos todos do mesmo lado atirando contra o nada?
A chuva para. O mundo está lavado e um hálito fresco sobe do chão. Perto do carro, minha filha me espera. Meu carro será em breve um ponto histérico a mais, a ser devorado pela goela insaciável dos túneis e da vida. Olho para trás, o padre inicia o ofertório e se oferta. Paz.
Minha filha estende a mão e me chama para o chão, que nos traga sem ofertas, com lágrimas que começam a brotar em silêncio, secas no fundo e na treva.

A Madonna leu meu blog

Poucos textos abaixo, reclamava este escrevinhador da recorrente presença da Madonna entre nós. A cantora, não a outra. Certamente indicado por Jesus - o dela, não o outro - eis que ela - a cantora - leu o post e então o que fez? Marcou nova vinda ao Brasil, no Carnaval, com o fim único de me provocar. Pois digo logo que não vou cair nesta, e não irei a qualquer sambódromo em que ela estiver. É só.

Merchandising de sete cabeças

“Quem se aventura a tentar entender um pouco o que significa o tal de merchandising acaba muitas vezes deixando de entender outros termos que pensava que sabia”. Foi esta a definição nem um pouco definitiva que certa vez ouviu-se em uma sala de aula. Mas, no fim das contas, o bicho não é tão feio quanto parece.

Se formos verificar em algum compêndio de marketing, lá vai estar que merchandising vem do inglês (até aqui, nada de novo) e quer dizer comercialização, promoção, entre outras coisas do gênero. Isto segundo o bom e velho dicionário Oxford Escolar, onde conta-se que estamos falando de uma técnica de marketing no ponto-de-venda que consiste em proporcionar uma melhor visualização do produto ou da marca. Motivo? Para instigar o consumidor a se motivar por aquela marca ou produto na hora da compra.

“Sim, entendi”, alguém poderá dizer, pensando que entendeu. Mas, se a questão do merchandising está ligada a alguma ação realizada no ponto-de-venda, que história é aquela de realizar merchandising em novelas, bigbrothers etc., como todos já devem ter ouvido falar ou observado nos letreiros finais de tais programas. Pelo que se sabe, a tela da televisão não é exatamente o ponto-de-venda de uma marca ou produto.

Esta é uma outra história, e tem a ver com o fato de os veículos de comunicação, eminentemente os canais de TV, terem convencionado chamar tais ações, de inserção daqueles tais produtos ou marcas dentro de uma atração especifica, seja novela ou qualquer outra faixa, exatamente de merchandising. Apenas isso.

Os americanos, que têm certeza de que sabem tudo, têm outro nome para isso: eles chamam esta inserção de tie-in, o que tem muito mais sentido. Não há uma tradução literal da expressão, mas é o equivalente a envolver o produto ou marca dentro do programa tal. Simples, não?

Mas voltemos ao merchandising do ponto-de-venda. Neste, algumas multimarcas do mundo da moda vêm procurando dar uma reestruturada no visual. Mudou a temporada, estas marcas ganham novas decorações, cada grife com seus temas. Cada uma destacando-se por sua originalidade e pioneirismo. Aí estão grifes como Alexander McQueen, Salvatore Ferragamo e Yves Saint Laurent com seus novos visuais seguindo as tendências do verão.

Uma sugestão: por que não usar a natureza no visual de sua loja?! O verde continua em alta nesta onda infinda de sustentabilidade, e algumas marcas apostam em diferentes interpretações da natureza, como vasos de plantas, às vezes em maior destaque do que o próprio vestuário ou em tapetes verdes dando um aspecto de grama e reforçado com imagens de árvores ao fundo. Fica a dica.

Com um olhar mais extravagante, sofás coloridos preenchem os espaços com manequins de madeira e rostos caricaturados, tudo para fazer contraste com os espaços já citados. Há também a proposta clean, com destaque para a arquitetura e os móveis, além de elementos convencionais e luminárias arrojadas. A marca Comme des Garçons investiu num ambiente variado para várias coleções, manequins personalizados e estruturas de metal dispostos para mostrar as próximas tendências.

Como se pode ver, o apelo do merchandising não é deve ser considerado apenas como uma ferramenta de marketing lá do Hemisfério Norte. A tendência das lojas, seja de que área for, é de provocar interação com o cliente, com muita criatividade, uso e abuso de ideias.