terça-feira, 11 de maio de 2010

De hora em hora, Deus piora

Talvez soe repetitivo, mas os textos do Cony são sempre magníficos. Como este, de domingo também, na Folha, sob o título Tempos Modernos, mas que poderia ser composto pela última frase que ele usa, e que eu tomo por meu título:

No programa "Liberdade de Expressão", que mantemos diariamente na CBN Heródoto Barbeiro, Arthur Xexéo, Viviane Mosé e eu, temos uma pauta bem variada. E dia desses comentávamos a bolação de um industrial, que mandou instalar, nos banheiros de suas fábricas, um circuito interno de TV para fiscalizar quantas vezes seus funcionários vão até lá, o que fazem e quanto tempo demoram ali. Na minha vez de falar, lembrei que em 1936, há mais de 70 anos, portanto, Chaplin fez um de seus filmes mais importantes, "Tempos Modernos". Após meses desempregado, Carlitos é operário de uma fábrica, onde passa oito horas diárias apertando parafusos que correm numa esteira de produção. A longo prazo, ele terminará numa clínica para loucos.Para aliviar o estresse, logo no primeiro dia, vai ao banheiro lavar o rosto. Na parede principal do lavabo, surge um telão com a cara do dono da fábrica perguntando o que ele está fazendo ali, por que não está no seu posto de trabalho. Carlitos dá as desculpas que pode, mas o dono ordena que ele regresse imediatamente aos parafusos e comunica que o tempo gasto no banheiro será descontado de seu salário. Quando Chaplin fez o filme, a tecnologia da época estava longe de permitir que um "Big Brother" qualquer invadisse a privacidade de quem quer que seja num banheiro ou em qualquer outro lugar de sua vida pessoal. Hoje é cada vez mais possível essa vigilância "full time" em cima dos cidadãos, de todos nós. Certamente, aqui e no resto do mundo, serão instalados equipamentos como os previstos por Chaplin, o que há 70 anos era apenas uma piada e que hoje ameaça um tipo de opressão que se tornará mais geral e mais anti-humana. De hora em hora, Deus piora.

O que não será possível com a educação?

Texto absurdamente fantástico que saiu na coluna do Gilberto Dimenstein, na Folha de domingo passado. Não dá pra não ler. Chama-se Novos pobres estão moldando as eleições?

Na cidade de São Paulo, 65% dos habitantes com mais de 16 anos têm, no mínimo, o diploma de ensino médio; no país inteiro, 55% deles vivem a mesma situação. Esses dados, que fazem parte da base com que o Datafolha elabora, neste ano, a amostragem de suas pesquisas eleitorais, ajudam a entender, pelo menos em parte, por que os eleitores, especialmente os mais pobres, estão mais exigentes ao "comprar" produtos e candidatos. Os três principais candidatos à Presidência, Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva, parecem encaixar-se no perfil de um eleitorado com maior escolaridade. Pelo menos até agora, eles demonstram um discurso com fortes toques de racionalidade, sem apelos messiânicos. Foi o que se viu no encontro que tiveram na semana passada, em Minas Gerais, onde participaram de um debate. Em São Paulo, os dois principais candidatos, Geraldo Alckmin e Aloizio Mercadante, também têm esse perfil mais técnico. Seria apenas coincidência?

Ainda estamos começando a descobrir como essa combinação de aumento de renda com evolução da escolaridade e aprendizado da democracia vem mudando a cabeça do brasileiro. Não param de aparecer surpresas. Um grupo de grandes empresas, entre as quais a Unilever e a PepsiCo, patrocinou um estudo sobre como o brasileiro percebe sua condição social. Mais da metade dos mais pobres (pertencentes às classes D e E) não se vê como pobre. Imagina-se pertencente à classe média baixa. Quanto maior a escolaridade, menor a percepção da pessoa de que faz parte do grupo mais pobre. Até porque parte desse grupo incorporou em sua vida símbolos do que se imagina como riqueza: um carro, por exemplo, ou um filho entrando na faculdade, mesmo que graças a alguma ajuda pública ou por causa de mensalidades baratas. O que mais cresce, no Brasil, são cursos a distância: não são poucos os alunos que fazem as aulas da LAN house mais próxima de suas casas. Há relatos de problemas nas universidades porque alunos mais velhos, casados e com filhos, não toleram a dispersão e a bagunça dos colegas mais jovens, interessados nas baladas e sem saber direito o que querem da vida.

Suspeito até que esteja aí um dos segredos do prestígio de Lula. Contrariando a expectativa do senso comum, como detectou o Datafolha, a área mais bem avaliada do governo dele não são os programas de distribuição de renda (Bolsa Família). Está na frente (ligeiramente, mas na frente) a educação, sem o governo gerir escolas. Minha suspeita é que o ProUni tenha uma enorme carga simbólica na vida desses milhões de brasileiros que olham o ensino superior como uma espécie de porta da esperança. Na semana passada, o governo federal apresentou um crédito educativo ainda mais facilitado. Para quem se dispuser a dar aulas em escola pública, a dívida será encerrada. Misturam-se desde promessas de expansão técnica até a universalização da banda larga. Colhi pesquisas que indicam que, entre os mais pobres, banda larga é sinônimo de mais informação, e mais informação é sinônimo de chance de emprego.

Na semana passada, foram divulgados os mais recentes dados sobre a taxa de natalidade em São Paulo. O que se vê é uma situação inimaginável até pouco tempo atrás: em breve, a população da capital vai encolher em termos absolutos. Quanto maior a escolaridade da mãe, independentemente da renda, menor o número de filhos. Aliás, nos bairros pobres com maior número de mulheres no ensino médio, a queda da taxa de violência foi maior.

Em todo esse movimento, a mulher se destaca. É ela quem mais vai à faculdade. É ela quem está em maior número na pós-graduação. E, para completar, há indicações de que suas notas sejam melhores. Por isso, é cada vez mais chamada aos melhores empregos nos segmentos mais sofisticados da economia. Mães mais educadas ajudam a entender a descoberta feita por um instituto especializado em levantar opinião das camadas mais pobres (o DataPopular): a classe C já compõe a maior parte dos alunos das escolas particulares.

Se tudo isso faz com que o consumidor seja mais exigente, fato sobejamente conhecido das empresas (tanto que vêm tentando aprimorar seus produtos para os mais pobres), por que ele seria menos exigente na hora de "comprar" um candidato?

PS- Achamos virtudes e defeitos nos três principais candidatos e em suas propostas. Vamos ter de suportar, como sempre, bobagens marqueteiras e falsas promessas. Mas não dá para deixar de admitir que essa seja uma combinação rara de candidatos preparados intelectualmente, com experiência política e administrativa, sem que se conheça (pelo menos até agora) qualquer coisa que aponte qualquer falta grave e moral. Talvez, quem sabe, tenhamos a chance de assistir a debates civilizados como o que ocorreu na semana passada em Minas Gerais.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Sobre escrever, aliás

Gosto de citar uma frase do Neruda, poeta chileno, que dizia o que eu disse no post atrás: escrever é fácil, basta iniciar com maiúscula e terminar com um ponto; no meio, é só colocar as ideias. Outro poeta, Drummond, ensinava diferente, dizia que escrever é a arte de cortar palavras. Os dois estão certíssimos.

Escrever é fácil, pensar é que são elas...

Vejam como é simples: uma história banal, com um molho diferente. Como somente o Cony e mais uns tantos por aí conseguem fazer. Este saiu na Folha de domingo, 2/5, sob o título Diabo no espaço:

Consta que um astronauta, numa dessas naves tripuladas que passeiam pelo espaço, enquanto seus colegas, obedecendo aos horários da base de Houston, dormiam em complicados leitos, montava guarda na cabine e viu o Diabo, sem a ajuda de nenhum equipamento, apenas com seus chifres, rabo e pés fendidos, caminhando pelo cosmos, aparentemente procurando alguma coisa.
Sabendo que o Pai das Trevas, desde o início do mundo, domina uma boa tecnologia, o astronauta tentou comunicar-se com ele. Para sua surpresa, o Diabo entrou na faixa sonora da cabine e os dois conversaram. O diálogo está nos arquivos secretos da Nasa, esperando hora propícia para divulgação.
Após considerações gerais sobre os destinos da humanidade, o astronauta quis saber do destino do próprio Diabo, o que ele fazia ali sozinho, aparentemente perdido no espaço, desorientado e deprimido.
Apesar de ser considerado o inventor da mentira, o Diabo falou a verdade. Estava deixando o planeta Terra, onde, desde a revolta dos anjos, antes da criação do mundo, decidira implantar o mal e a desgraça na obra de Deus.
O astronauta quis saber a razão de tão humilhante retirada. Seria uma derrota diante das forças do bem? Nada disso, informou o Diabo. Ele ia embora da Terra porque sua atividade tornara-se supérflua com o advento da internet e do Twitter.
Procurava agora um planeta em estágio tecnológico menos adiantado, sem um tipo de comunicação onde qualquer um pode fazer um estrago bem maior do que ele na comunidade internacional e na vida de cada um. Disse ainda que, com a vulgaridade das informações e comunicações, ao mesmo tempo em que tudo devia ficar melhor, a tendência será complicar cada vez mais a já complicada humanidade.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

É meu, ou do outro, ou do outro

Este outro texto também não é meu, como não é o do Marcelo Coelho mais aí abaixo. Aliás, nem do Marcelo Coelho é, pois é do José de Alencar, que não é o que a gente tem ouvido falar toda hora por aí por causa ou da vice-presidência ou do câncer com que ele briga. Este texto é do Cony, e saiu na Folha de terça, 27 de abril, sob o título Nunca fica pronto, mas que não era o texto que, como lemos, ficou pronto. E bom.

Não será a primeira nem a última vez. Sempre que vou ao exterior me perguntam por que o Brasil nunca fica pronto. Aparentemente, poderia ficar orgulhoso com a indagação, sinal de que estamos em processo, ou em progresso, não estacionamos no tempo e na história, mudamos sempre para tentar o melhor. Só não mudamos de espaço, porque continuamos grudados na América Latina.
Acontece que este "melhor" nunca vem, e cada mudança pretende tornar as coisas melhores, piorando de estalo a vida de todos nós e as nossas relações com os de fora.
Pode ser que esteja enganado, mas não me lembro de ter declarado o Imposto de Renda pelas mesmas regras em dois exercícios fiscais seguidos. Passei a tarefa ao meu contador, pois a coisa ficou tão complicada e tão mutável que não tenho mais paciência, tempo e vontade de cumprir com o meu dever de contribuinte.
Pago a um escritório de contabilidade, como se fosse um nababo, um empresário de múltiplos rendimentos, quando na realidade não passo de um pobre coitado. Até bem pouco tempo, nem tinha onde cair morto, e só resolvi este macabro problema quando me aturaram na Academia Brasileira de Letras, que dispõe de um mausoléu para abrigar meus desolados ossos.
E, além das regras do Imposto de Renda que mudam a cada ano, muda-se o pacto social de tempos em tempos no que diz respeito às condições de trabalho, aposentadoria, seguros de saúde, critérios de educação e ensino, legislação eleitoral. Só não muda nossa mania nacional de mudanças.
Quando Tancredo Neves foi eleito presidente da República, sugeriram-lhe um slogan de governo: "Mudanças já!" Com uma variante: "Muda, Brasil!". Como sabemos, Tancredo não chegou a tomar posse, mas o Brasil continuou mudando, nem sempre para melhor.

Duas coisinhas bem mal intencionadas

Dependemos todos da mídia, mas nuncanahistóriadestepaís ela foi tão explícita nas suas intenções, nem tão fiel a seus compromissos com o que os americanos chamariam de establishment e ela adoraria por parecer mais chique. Depois de tantas, mas tantas, mas tantas, a mídia ainda não cansou de se superar, como nestas duas: a) resolveu dar uma importância absurdíssima a uma questão relacionada a uma foto do site da candidata do Lula em que aparece a atriz Norma Bengell como se fosse a outra. Vamos considerar que tenha sido proposital a troca, sabe-se lá bem o porquê. No que isso afetaria a vida de qualquer um de nós? Será que poderia mudar tudo e a atriz reivindicar o cargo de presidenta? Não entendi bem. b) Vamos ver se esta eu entendo: a revista americana Time cometeu a loucura de escolher Lula como a ou uma das personalidades mais influentes do mundo. Pra quê? Primeiro a Folha deu destaque que ele era a primeira, o primeiro mais influente; em seguida a revista parece ter dito que não classificara de 1 a 1.000 ou coisa assim. Aí vem o jornal e mancheteia que a revista negava que Lula era influente e tal e coisa. Uma bagunça só, repercutida por todo lado. Hoje cedo, na Jovem Pan, tinha até um cão de guarda desses famosos de quem não guardo o nome que esforçava-se para mostrar que até agora não havia como desqualificar a homenagem da Time. Quanto às anteriores, do Le Monde e do El Pais, ele já havia descoberto que era tudo armado. Ah, bom. Ainda bem. Continuamos vira-latas, portanto.

Envergonhe-se do seu país

Atendendo a meus inúmeros dois pedidos para disponibilizar bons textos por aqui, não resisti a colocar mais este do Marcelo Coelho, que saiu na Folha de quarta, dia 28 de abril, sob o título Manual do bom conservador. Vale a pena a leitura, menos para perder de vez as esperanças nesta nossa terra varonil, que tanto gosta de se passar de muderninha, mas que cultiva e mantém um pensamento muitíssimo próximo deste escrito pelo famoso José de Alencar, não o vice atual, mas o autor clássico cearense, autor de O Guarani, entre tantos outros, inclusive esta loucura descrita abaixo. Envergonhe-se:

Comecei depressa a ler o livro, que é curto, mas perdi a coragem de continuar. Só depois de uma pausa consegui retomá-lo. Foi escrito por José de Alencar nos anos 1867-68 e nunca mais foi republicado.
Reaparece agora em edição de bolso, à venda até em bancas de jornal. E devia ser leitura obrigatória no currículo do secundário, tal a sua capacidade de sintetizar a mentalidade brasileira no que tem de mais conservador, de mais atrasado, de mais duro.
Trata-se das "Cartas a Favor da Escravidão" (editora Hedra), que o célebre romancista endereçou, sob pseudônimo, ao imperador dom Pedro 2º. É sempre fácil, sem dúvida, acusar de insensibilidade e falta de lucidez um texto escrito em outra época.
Mas o que mais importa é ver de que modo o livro de José de Alencar expressa hábitos de pensamento que, até hoje, fazem parte do arsenal reacionário.
Veja, por exemplo, a crítica de Alencar às pressões de países como Inglaterra e França para que acabasse a escravidão por aqui. Como assim?, pergunta Alencar.
Que direito têm as potências estrangeiras de interferir num assunto brasileiro? Filantropia e indignação moral são expedientes hipócritas dos europeus. De resto, não temos culpa pela escravidão.
"Não fomos nós, povos americanos, que importamos o negro da África para derrubar matas e laborar a terra; mas aqueles que hoje nos lançam o apodo e o estigma por causa do trabalho escravo." Alencar continua: "O filantropo europeu, entre a fumaça do bom tabaco de Havana e da taça do excelente café do Brasil, se enleva em suas utopias humanitárias (...) Em sua teoria, a bebida aromática, a especiaria, o açúcar e o delicioso tabaco são o sangue e a medula do escravo.
Não obstante, ele os saboreia". É típico. Nossa inocência está sempre fora de dúvida. Não se pode exigir de um país tão "jovem" que assuma responsabilidade pelo que faz. O fim da escravidão, diz Alencar, virá a seu tempo. Ainda é cedo para querer isso no Brasil. "A raça africana tem apenas três séculos e meio de cativeiro. Qual foi a raça europeia que fez nesse prazo curto a sua educação?"
Sim, porque a escravidão educa o negro. É nessa "escola de trabalho e sofrimento" que um povo "adquire a têmpera necessária para conquistar o seu direito e usar dele".
Cabe considerar também, diz Alencar, que esse processo educativo é mais lento no Brasil do que, por exemplo, no norte dos Estados Unidos. Lá, graças ao espírito industrioso dos anglo-saxões, o negro rapidamente se transformou num "operário ao qual só faltava o espírito do lucro". Mas nós, brasileiros, somos diferentes. "A raça latina é sobretudo artística (...) Outros elementos, que não o cômodo e o útil, impelem o caráter ardente dessa família do gênero humano: ela aspira sobretudo ao belo e ao ideal."
Como diz a ótima introdução do historiador Tâmis Parron, deve-se fazer uma justiça a José de Alencar: ele não compactua com as teses da época sobre a inferioridade racial dos negros. O problema, como sempre, é "de educação", "despreparo". Mantenha-se, portanto, a escravidão. Aliás, de que escravidão exatamente se está falando? "Um espírito de tolerância e generosidade, próprio do caráter brasileiro, desde muito transforma sensivelmente a instituição. Pode-se afirmar que não temos já a verdadeira escravidão, porém um simples usufruto da liberdade."
As relações entre senhor e escravo "adoçaram" por aqui, diz Alencar, repetindo várias vezes o verbo que faria tanto sucesso na obra de Gilberto Freyre. Seja como for, o escravismo é uma "instituição". E "as instituições dos povos são coisa santa, digna de toda veneração. Nenhum utopista, seja ele um gênio, tem o direito de profaná-las".
Senhores utopistas, fiquem avisados. O que se pretende, ilusoriamente, em nome do progresso, dos direitos humanos etc., contradiz a realidade social. Transformá-la, ainda mais tão cedo, é uma insensatez. Há de preferir-se a realidade, é claro. Desde que se esteja do lado certo do chicote.